Pré-candidato afirma que judicialização da obra ignora a realidade de municípios do sul do Amazonas e amplia isolamento da região
Por: [Manuel Menezes]
O anúncio de que a Observatório do Clima ingressará com uma Ação Civil Pública contra os editais do governo federal para a repavimentação da BR-319 reacende um dos debates mais sensíveis da Amazônia contemporânea: o embate entre preservação ambiental e desenvolvimento regional.
A coalizão, que reúne 161 organizações socioambientais, acusa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de violar a Constituição ao retomar um dispositivo legal que, segundo o grupo, havia sido vetado anteriormente pelo próprio Executivo. Para os ambientalistas, a medida representa um “enorme risco ao controle do desmatamento na Amazônia”.
“Não dá para decidir o futuro do interior de costas para quem vive nele”, diz Felipe Lobo
O pré-candidato a deputado estadual e natural de Humaitá, Felipe Lobo, contestou duramente a iniciativa e afirmou que o debate sobre a BR-319 tem sido conduzido de forma distanciada da realidade do interior.
“Não dá para aceitar que decisões sobre o futuro do sul do Amazonas sejam tomadas de costas para quem vive aqui. A BR-319 não é luxo, é necessidade básica de integração e sobrevivência econômica”, afirmou Lobo.
Segundo ele, o avanço de ações judiciais contra a rodovia ignora o impacto direto da falta de infraestrutura sobre a população, que enfrenta altos custos de transporte, dificuldade de acesso a serviços e isolamento logístico histórico.
“A BR-319 virou símbolo de um Brasil desigual”, afirma
Para Felipe Lobo, a BR-319 deixou de ser apenas uma obra de infraestrutura e passou a representar uma disputa mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento do país.
“Hoje a BR-319 virou símbolo de um Brasil desigual. De um lado, quem vive no eixo de decisão; do outro, quem vive o isolamento todos os dias. Isso não pode continuar assim”, disse.
Ele argumenta que o sul do Amazonas não pode ser tratado como uma área “intangível”, onde qualquer projeto de integração seja automaticamente barrado sem considerar a realidade social da região.
Crítica à judicialização e ao bloqueio de obras
O posicionamento de Lobo também critica o aumento de disputas judiciais envolvendo obras estruturantes na Amazônia. Segundo ele, esse cenário cria insegurança institucional e afasta investimentos essenciais para o desenvolvimento regional.
“Essa judicialização constante paralisa o Amazonas. Enquanto se discute em gabinetes, cidades como Humaitá, Manicoré e Lábrea seguem isoladas, sem alternativa de crescimento real”, afirmou.
Desenvolvimento e meio ambiente: “não são inimigos”, diz
Apesar do tom crítico, Felipe Lobo reforça que não defende a ausência de regras ambientais, mas sim um modelo equilibrado de desenvolvimento.
“Ninguém aqui é contra o meio ambiente. O que não podemos aceitar é o uso disso como justificativa para manter o interior isolado. É possível desenvolver com responsabilidade, com fiscalização e com presença do Estado”, destacou.
Um impasse que se arrasta há décadas
A discussão sobre a BR-319 volta, mais uma vez, ao mesmo ponto de origem: de um lado, o alerta ambiental; do outro, a demanda histórica por integração e infraestrutura.
Enquanto isso, o sul do Amazonas segue à espera de uma decisão que pode redefinir seu futuro econômico e social.
E, para Felipe Lobo, o questionamento permanece urgente:
“Até quando o desenvolvimento do interior da Amazônia vai ser tratado como exceção, e não como prioridade nacional?”
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