Vereadores, Prefeitura, produtores rurais, lideranças comunitárias e moradores manifestam rejeição à criação da RDS Mirari e à ampliação da Estação Ecológica de Cuniã; consulta pública segue aberta até 16 de junho
Por: Redação MVE
A audiência pública promovida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), realizada nesta terça-feira (9), em Humaitá, entrou para a história recente do município ao reunir representantes de diversos setores da sociedade em torno de uma pauta comum: a rejeição às propostas de criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mirari e da ampliação da Estação Ecológica de Cuniã nos limites atualmente apresentados pelo órgão federal.
O encontro, que tinha como objetivo apresentar os estudos técnicos das propostas e ouvir a população, acabou se transformando em uma grande mobilização popular em defesa da regularização fundiária, da segurança jurídica das famílias e da manutenção das atividades produtivas desenvolvidas na região.
Ao longo das discussões, produtores rurais, vereadores, representantes da Prefeitura, lideranças comunitárias, moradores de áreas rurais e ribeirinhas manifestaram preocupação com os possíveis impactos das medidas sobre milhares de hectares ocupados por famílias que vivem, produzem e aguardam processos de regularização fundiária.
União rara entre situação e oposição
Um dos fatos que mais chamou atenção durante a audiência foi a convergência política observada no debate.
Parlamentares da base do prefeito Dedei Lobo, vereadores independentes e membros da oposição adotaram discursos semelhantes ao defender que qualquer iniciativa ambiental precisa considerar primeiro a realidade fundiária e econômica do município.
A pauta acabou unindo diferentes correntes políticas em torno da defesa dos interesses locais, algo considerado raro na política humaitaense.
Diversos vereadores reforçaram que a preservação ambiental é necessária, mas não pode ocorrer à custa da insegurança jurídica de agricultores, produtores rurais, posseiros e comunidades tradicionais.
Prefeitura endurece discurso
A Prefeitura de Humaitá também apresentou uma das manifestações mais contundentes do encontro.
Em nota institucional divulgada oficialmente, o município declarou ser contrário à criação da RDS Mirari e à ampliação da Estação Ecológica de Cuniã nos limites atualmente propostos, argumentando que as medidas podem gerar impactos significativos sobre a produção rural, a regularização fundiária, o acesso ao crédito, a abertura e manutenção de ramais e o desenvolvimento econômico local.
Segundo a administração municipal, existem áreas produtivas, comunidades estabelecidas há décadas e famílias em processo de regularização que podem ser diretamente afetadas pelas novas delimitações.
O município defende que qualquer proposta ambiental seja precedida por levantamentos fundiários detalhados e por estudos socioeconômicos aprofundados.
O argumento do ICMBio
Do outro lado do debate, o ICMBio sustenta que as consultas públicas fazem parte do processo legal de criação e ampliação de unidades de conservação e têm justamente o objetivo de ouvir a sociedade antes da conclusão dos estudos.
Nos documentos técnicos disponibilizados pelo instituto, a criação da RDS Mirari e a ampliação da Estação Ecológica de Cuniã são apresentadas como estratégias para fortalecer a conservação da biodiversidade amazônica, proteger recursos naturais e ordenar o uso do território em áreas consideradas ambientalmente sensíveis.
O próprio órgão informa que a consulta pública continua aberta até o dia 16 de junho, permitindo o envio de sugestões, críticas e manifestações da população por meio do e-mail oficial disponibilizado pelo instituto.
Regularização fundiária virou o centro do debate
Se houve um tema dominante durante toda a audiência, foi a questão fundiária.
Moradores e lideranças locais argumentaram que o principal problema da região não é a falta de novas reservas ambientais, mas a ausência de regularização das propriedades rurais e das ocupações históricas existentes.
A avaliação compartilhada por grande parte dos participantes é que a criação de novas restrições territoriais antes da conclusão dos processos fundiários pode ampliar conflitos, dificultar investimentos e comprometer a permanência de famílias no campo.
A defesa da regularização fundiária também foi reforçada por representantes do setor produtivo, que apontaram a necessidade de garantir segurança jurídica para acesso ao crédito rural, assistência técnica e políticas públicas.
Produção rural e economia local preocupam moradores
Outro ponto amplamente discutido foi o impacto econômico das propostas.
Humaitá é um dos principais polos produtivos do sul do Amazonas, com forte presença da agricultura familiar, pecuária, produção de grãos, pesca artesanal e extrativismo.
Produtores presentes na audiência argumentaram que novas limitações territoriais podem comprometer investimentos futuros, afetar a expansão da produção e dificultar o escoamento da safra por meio dos ramais rurais.
Para muitos participantes, a proteção ambiental precisa ser conciliada com a geração de emprego, renda e oportunidades para quem vive na região.
Participação popular ainda será decisiva
Apesar da forte rejeição observada durante a audiência, a discussão está longe de terminar.
O ICMBio informou que todas as manifestações recebidas durante a consulta pública serão analisadas antes da conclusão dos estudos técnicos.
Por isso, lideranças políticas e comunitárias estão incentivando a população a participar formalmente do processo, enviando sugestões e posicionamentos até o prazo final de 16 de junho.
Um debate que vai além de Humaitá
A audiência desta terça-feira demonstrou que a discussão sobre a RDS Mirari e a ampliação da Estação Ecológica de Cuniã ultrapassa a questão ambiental.
O que está em debate é o modelo de desenvolvimento para o sul do Amazonas e a forma como políticas de conservação podem coexistir com a produção rural, a regularização fundiária e a permanência das famílias em seus territórios.
Ao final do encontro, ficou evidente que Humaitá enviou um recado claro aos órgãos federais: a população quer participar das decisões que impactam seu futuro e defende que a preservação da Amazônia caminhe lado a lado com segurança jurídica, desenvolvimento econômico e respeito às comunidades que vivem na região.
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