Por: Manuel Menezes
A deputada federal Sâmia Bomfim afirmou durante a Parada LGBT de São Paulo que “o que destrói as famílias brasileiras é a escala 6×1”. A frase ganhou manchetes, aplausos e compartilhamentos nas redes sociais. Mas, quando analisada com responsabilidade, revela um problema recorrente da política brasileira: a facilidade com que alguns parlamentares transformam questões complexas em slogans ideológicos.
É evidente que milhões de trabalhadores enfrentam jornadas cansativas. Ninguém em sã consciência defende exploração, excesso de trabalho ou condições degradantes. O problema está em vender a ideia de que a escala 6×1, por si só, seria a grande responsável pela crise das famílias brasileiras.
Quem conhece a realidade do interior do Amazonas, do agronegócio, do comércio, da construção civil, da indústria e dos pequenos negócios sabe que o mundo real é muito mais complexo do que os discursos feitos em cima de trios elétricos e palanques políticos.
A verdade é que boa parte dos parlamentares que hoje condenam a escala 6×1 jamais precisou acordar às quatro da manhã para enfrentar uma viagem de barco rumo ao trabalho. Nunca dependeram de um salário apertado para sustentar filhos. Nunca administraram uma pequena empresa lutando para sobreviver em meio a impostos elevados, burocracia sufocante e juros abusivos.
É fácil apontar o dedo para a jornada de trabalho. Difícil é enfrentar os verdadeiros problemas que corroem as famílias brasileiras todos os dias.
O que destrói famílias é o desemprego.
O que destrói famílias é a falta de renda.
O que destrói famílias é a violência que toma conta de bairros inteiros.
O que destrói famílias é a ausência de creches.
O que destrói famílias é o tráfico de drogas recrutando jovens.
O que destrói famílias é um sistema educacional incapaz de oferecer oportunidades reais de ascensão social.
O que destrói famílias é um país onde milhões de pessoas trabalham muito e continuam pobres.
Transformar a escala 6×1 na grande vilã nacional pode render aplausos em determinados ambientes políticos, mas não resolve nenhuma dessas questões.
Além disso, existe um aspecto raramente mencionado por quem defende mudanças radicais na legislação trabalhista: os impactos econômicos. Pequenos comerciantes, supermercados, restaurantes, hotéis e prestadores de serviços podem enfrentar aumento significativo nos custos operacionais caso mudanças sejam implementadas sem planejamento. Em muitos casos, a consequência pode ser justamente o oposto do prometido: menos empregos, menos contratações e mais informalidade.
Isso não significa que a legislação trabalhista não possa evoluir. Pelo contrário. O debate sobre qualidade de vida, produtividade e equilíbrio entre trabalho e descanso é legítimo e necessário. Mas precisa ser conduzido com responsabilidade técnica, ouvindo trabalhadores, empregadores, economistas e especialistas, e não apenas militantes ou lideranças políticas em busca de narrativas.
O Brasil precisa discutir o futuro do trabalho. Precisa modernizar relações trabalhistas. Precisa criar condições para que as pessoas vivam melhor. Mas reduzir a complexa realidade das famílias brasileiras a uma única escala de trabalho é uma simplificação que não ajuda ninguém.
A política deveria produzir soluções. Não frases de efeito.
E quem realmente vive o dia a dia do trabalho sabe que os problemas do Brasil são muito maiores do que um slogan de campanha.
*Fonte menezesvirtualeye
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