05/07/2026
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Ex-bispo de Catanduva vira réu por abusos contra padre

Ex-bispo de Catanduva vira réu
Foto Diocese de Catanduva/Divulgação

Denúncia aceita contra ex-bispo por importunação sexual e abusos cometidos entre 2019 e 2023.

O ex-bispo de Catanduva, Valdir Mamede, se torna réu por importunação sexual e abusos contra um padre da paróquia de Ibirá, em decisão tomadanesta semana. A Justiça da 2ª Vara Criminal de Catanduva aceita denúncia do Ministério Público de São Paulo, que descreve uma sequência de episódios de violência sexual e constrangimentos cometidos entre 2019 e 2023.

Denúncia detalha abusos e uso de poder religioso

A acusação afirma que Mamede se vale da posição de autoridade na Diocese de Catanduva para controlar a vida do padre e forçá-lo a situações de cunho sexual. O padre, subordinado ao então bispo e hoje afastado da Igreja por licença médica, relata anos de assédio, medo e ameaças veladas de punições canônicas.

Na denúncia, o Ministério Público descreve um padrão de conduta. Em mensagens e conversas, o ex-bispo pede que o padre depile seu corpo e passe mais de uma vez a máquina de barbear, sob pretexto de cuidados pessoais. O gesto, segundo a Promotoria, serve para que Mamede fique nu diante da vítima e avance sobre ela.

Os relatos incluem também videochamadas em que o ex-bispo aparece totalmente nu, se masturba diante da câmera e exige atenção do padre. Em outro episódio, classificado pelo MP como violência sexual, Mamede chega à casa do religioso, aparentando estar alcoolizado. O padre permite a entrada, preocupado com o estado do superior. Dentro do quarto, o ex-bispo tira a roupa, deita-se nu na cama do padre e se masturba.

Para o promotor responsável pelo caso, Caíque Ducatti, o conjunto de provas aponta uma dinâmica de abuso prolongado. “Os elementos reunidos indicam que os fatos ocorreram de forma continuada e que o denunciado teria se aproveitado da posição de liderança religiosa para manter a vítima em situação de vulnerabilidade psicológica”, afirma, no documento encaminhado à Justiça.

Material biológico e boletim de ocorrência reforçam caso

O ponto de ruptura ocorre após o último episódio na casa do padre. A vítima recolhe material biológico deixado em um lençol e encaminha o tecido para perícia. O laudo, citado na denúncia, confirma a presença de material de um indivíduo do sexo masculino, identificado como compatível com o ex-bispo.

O padre registra boletim de ocorrência em 22 de março de 2024. A partir daí, o caso sai do circuito interno da Igreja e entra oficialmente na esfera criminal. O Ministério Público abre investigação, colhe depoimentos e cruza as narrativas com registros de mensagens, chamadas e documentos da Diocese.

Entre 2019 e 2023, período em que os abusos teriam ocorrido, Mamede atua como bispo de Catanduva, após passagem como bispo auxiliar em Brasília. A vítima atua como padre em Ibirá, cidade a cerca de 30 quilômetros de Catanduva, em paróquia diretamente subordinada à diocese. O vínculo hierárquico, segundo o MP, é central para entender por que o padre continua preso ao ciclo de abusos por tantos anos.

O processo corre em segredo de Justiça, por determinação da 2ª Vara Criminal e Anexo da Infância e da Juventude de Catanduva. A decisão busca proteger a identidade do padre e preservar outras possíveis vítimas e testemunhas, que podem se sentir intimidadas em um ambiente marcado por forte poder simbólico e religioso.

Renúncia antecipada e impacto na Diocese

Em novembro de 2023, meses antes do registro formal da denúncia, Valdir Mamede renuncia ao comando da Diocese de Catanduva. A saída não tem justificativa pública clara. O gesto, porém, ganha novo peso quando vêm à tona os relatos do padre de Ibirá e a posterior peça apresentada pelo Ministério Público.

A diocese passa a conviver com questionamentos sobre governança interna e mecanismos de controle sobre a conduta de seus líderes. Fiéis, padres e seminaristas veem o caso como sintoma de uma estrutura que concentra poder na figura do bispo e oferece pouca proteção institucional a quem decide denunciar.

O Ministério Público afirma que há depoimentos que apontam supostas condutas semelhantes de Mamede em relação a outros seminaristas. Esses indícios podem abrir novas frentes de apuração. A eventual confirmação de um padrão mais amplo de abuso tende a ampliar o desgaste da Igreja local e a pressão por transparência.

Enquanto o processo avança, o padre permanece afastado de suas funções e em licença médica. A Promotoria relaciona o quadro de saúde diretamente ao contexto de violência psicológica e sexual descrito na denúncia. A indenização mínima pedida, de R$ 300 mil, busca compensar danos morais acumulados ao longo de cerca de cinco anos.

Medidas de proteção e próximos passos do processo

Além da responsabilização criminal, o Ministério Público solicita uma série de medidas cautelares para proteger o padre e eventuais testemunhas. Entre elas estão a proibição de contato ou aproximação do ex-bispo em relação à vítima, a vedação de acesso à Diocese de Catanduva e à paróquia de Ibirá, além da entrega do passaporte.

A Promotoria também pede que Mamede seja impedido de citar o nome da vítima ou comentar publicamente os fatos investigados, para evitar exposição e constrangimento adicionais. O Judiciário analisa os pedidos no âmbito da ação penal que acaba de ser aberta com o recebimento da denúncia.

O caso segue agora para a fase de instrução. O juiz responsável deverá marcar audiências para ouvir o padre, o ex-bispo e as testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa. Novos laudos podem ser solicitados, e documentos adicionais, apresentados.

Ao final dessa etapa, caberá à Justiça decidir se condena ou absolve Mamede. Uma eventual condenação por importunação sexual e outros crimes pode se tornar um precedente importante na responsabilização de autoridades religiosas por abusos cometidos dentro da própria estrutura eclesiástica.

O impacto, porém, não se limita ao tribunal. A Diocese de Catanduva enfrenta uma crise de confiança que obriga a revisão de protocolos de acolhimento de denúncias e proteção de padres, seminaristas e fiéis. A exposição do caso pode encorajar outras vítimas a romper o silêncio, em Catanduva e em outras dioceses, pressionando a Igreja a adotar mecanismos mais rígidos de prevenção e punição de abusos.

A defesa de Valdir Mamede e a própria diocese são questionadas por veículos de imprensa, mas ainda não apresentam posicionamento público sobre as acusações. Até que falem, a narrativa predominante é a que emerge dos autos criminais. A Justiça, agora, passa a ser o palco principal de uma disputa que envolve dor individual, poder religioso e a credibilidade de uma instituição central na vida de milhares de fiéis no interior paulista.

Quem é o ex-bispo que virou réu após denúncia de abuso sexual por padre?

Valdir Mamede é ex-bispo de Catanduva, no interior de São Paulo. Antes, atua como bispo auxiliar em Brasília. Ele deixa o comando da diocese em novembro de 2023, por renúncia.

Quais são as acusações feitas pelo padre contra o ex-bispo?

O padre relata importunação sexual e abusos entre 2019 e 2023, como pedidos de depilação do corpo do bispo, videochamadas em que ele aparece nu e se masturba, além de um episódio em que Mamede, nu, se masturba na cama da vítima, após ir até sua casa.

Como o padre denunciou os abusos sexuais e outras condutas do ex-bispo?

Depois do último episódio, o padre recolhe material biológico em um lençol e o envia para perícia. Em 22 de março de 2024, registra boletim de ocorrência e apresenta os elementos ao Ministério Público, que oferece denúncia à Justiça.

Qual foi a reação da Igreja Católica após a denúncia do padre?

Até agora, não há posicionamento público detalhado da Diocese de Catanduva sobre o conteúdo da denúncia. Mamede renuncia ao cargo em novembro de 2023, antes do registro do boletim de ocorrência, e a diocese é questionada pela imprensa, mas não responde até a última atualização dos relatos disponíveis.

*Fonte ncnews


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