Homenagem no Carnaval pode fortalecer narrativa governista, mas também acende alerta sobre personalização do poder e uso simbólico da cultura popular.
Por [Manuel Menezes]
O Brasil assiste a um movimento que vai além do Carnaval. Quando uma escola de samba transforma o presidente da República em enredo e há expectativa de que a primeira-dama desfile como destaque em carro alegórico, não se trata apenas de arte — trata-se de poder.
Luiz Inácio Lula da Silva sempre soube utilizar símbolos populares como instrumento político. Sua trajetória está profundamente ligada à construção de narrativas de identidade, origem e representatividade. O problema não é a homenagem. O problema é o momento.
O país enfrenta desafios econômicos, tensão fiscal, desgaste político e uma sociedade dividida. Nesse cenário, a imagem do presidente sendo exaltado na Marquês de Sapucaí pode ser interpretada como tentativa de reforçar capital simbólico em ambiente de ampla visibilidade.
A eventual presença de Janja no desfile amplia o peso político do ato. Desde o início do mandato, a primeira-dama ocupa espaço público ativo e participa de agendas estratégicas. Sua aparição como destaque em um enredo dedicado ao próprio presidente pode ser vista como gesto que reforça a personalização do governo — algo que, historicamente, gera desgaste quando ultrapassa a linha da institucionalidade.
Há um ponto sensível aqui: o presidente não é apenas líder de um grupo político, é chefe de Estado. Quando a figura institucional se mistura com celebração personalista, surge a percepção de confusão entre governo e espetáculo.
O alerta sobre possível “cenário de soma negativa” não é exagero. Ao transformar a maior festa popular do país em vitrine simbólica do poder, o governo pode mobilizar sua base, mas também reacender críticas sobre uso político de espaços culturais.
Carnaval é liberdade artística. Mas também é espaço de disputa narrativa. A diferença entre homenagem espontânea e estratégia calculada está na leitura pública — e essa leitura é inevitavelmente política.
Além disso, há um risco estratégico: a superexposição em ambiente festivo pode soar desconectada das preocupações reais da população. Em tempos de inflação persistente e desafios sociais, imagens celebratórias podem gerar contraste indesejado.
A política brasileira já vive em campanha permanente. Inserir o presidente em um enredo de exaltação pode reforçar essa sensação. E quando tudo vira palco, o discurso institucional perde sobriedade.
Não se trata de proibir homenagens. Trata-se de questionar a conveniência e o impacto político de um chefe de Estado se associar diretamente a uma narrativa festiva sobre si mesmo.
Se a estratégia funcionar, Lula fortalecerá sua imagem popular. Se não, poderá alimentar a crítica de que o governo confunde liderança institucional com protagonismo simbólico excessivo.
A Sapucaí é palco de cultura. Mas quando o poder sobe no carro alegórico, o desfile deixa de ser apenas espetáculo — vira mensagem.
E mensagem política, em ambiente polarizado, nunca é neutra.
*Fonte menezesvirtualeye
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