O Ministério da Fazenda estima arrecadar R$ 14 bilhões adicionais em 2026 com o aumento do imposto de importação sobre mais de mil produtos, medida adotada no início de novembro para fortalecer a indústria nacional. A lista inclui smartphones, freezers, painéis LCD e LED, além de diversos bens de capital, informática e telecomunicações. Parte das novas alíquotas já está em vigor; o restante passa a valer em março.
Segundo a equipe econômica, o reforço de receita ajudará o governo federal a cumprir a meta de superávit neste ano. Desde o início do terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem promovido ajustes tributários para reequilibrar as contas públicas.
Tarifas sobem até 7,2 pontos percentuais
A decisão elevou em até 7,2 pontos percentuais a taxação de máquinas, equipamentos e bens de informática e telecomunicações importados. O impacto atinge tanto setores produtivos que dependem desses insumos quanto consumidores que compram produtos no exterior.
Importadores criticam a medida, alegando perda de competitividade e risco de pressão inflacionária. Já o governo defende que o ajuste é necessário para proteger a indústria nacional.
Argumentos do Ministério da Fazenda
Em nota técnica, o Ministério da Fazenda destacou que as importações de bens de capital e informática cresceram 33,4% desde 2022, e que a participação desses produtos no consumo nacional ultrapassou 45% em dezembro de 2023 — nível considerado capaz de ameaçar cadeias produtivas e provocar retrocessos tecnológicos.
A pasta afirma que o aumento das tarifas é “moderado e focalizado”, com o objetivo de:
- readequar preços relativos
- mitigar concorrência assimétrica
- conter o avanço de importados
- reduzir vulnerabilidades externas
O governo também argumenta que a medida está alinhada ao cenário internacional, citando países que adotam instrumentos de proteção setorial e remédios comerciais.
As principais origens das importações em 2023 foram:
- Estados Unidos – US$ 10,18 bilhões (34,7%)
- China – US$ 6,18 bilhões (21,1%)
- Singapura – US$ 2,58 bilhões (8,8%)
- França – US$ 2,52 bilhões (8,6%)
Apesar do aumento, o governo abriu a possibilidade de redução temporária da alíquota para zero até 31 de março, com concessão por até 120 dias.
Contexto internacional e protecionismo
A medida ocorre em um momento de debate global sobre protecionismo. Desde o “tarifaço” do ex-presidente Donald Trump, o Brasil vinha criticando o aumento de tarifas dos EUA. Na última sexta-feira (20), a Suprema Corte americana decidiu que Trump extrapolou sua autoridade ao impor aumentos generalizados.
Lula já havia afirmado, em 2024, que reagiria a iniciativas protecionistas dos EUA, classificando-as como práticas que “não cabem mais”.
Estudos mostram que, embora o Brasil tenha aumentado sua abertura comercial nos últimos anos, ainda mantém uma estrutura mais fechada que a de outros países emergentes.
Impactos sobre investimento e indústria
Para Mauro Lourenço Dias, presidente do Fiorde Group, o Brasil possui um parque industrial envelhecido, com equipamentos muitas vezes ultrapassados. Ele afirma que a indústria nacional de bens de capital não consegue atender plenamente à demanda interna, o que torna a importação essencial.
Segundo ele, o aumento das tarifas tende a gerar efeitos em cadeia:
“Quando o custo sobe de forma abrupta, muitos projetos ficam comprometidos e a competitividade do Brasil no cenário internacional é afetada.”
Efeito nos preços e na inflação
O Fiorde Group estima que o aumento pode encarecer:
- motores de portão
- televisores e eletrodomésticos
- manutenção de equipamentos hospitalares
- exames médicos
- obras de infraestrutura
O Ministério da Fazenda, porém, avalia que o impacto no IPCA será indireto e baixo, por se tratar majoritariamente de bens de produção. A pasta afirma que a medida pode fortalecer a indústria nacional e reduzir a dependência de importados.
Principais produtos atingidos
A lista inclui mais de mil itens, entre eles:
Eletrônicos e consumo
- Smartphones
- Painéis LCD/LED
- Cartuchos de tinta
- Máquinas de cortar cabelo
Máquinas industriais e bens de capital
- Reatores nucleares
- Caldeiras
- Bombas e turbinas
- Freezers
- Robôs industriais
- Empilhadeiras
- Máquinas para indústrias têxtil, alimentícia e calçadista
Veículos e equipamentos pesados
- Tratores
- Embarcações
- Plataformas de perfuração
- Navios de guerra
Equipamentos médicos
- Ressonância magnética
- Tomografia
- Câmeras especializadas
- Aparelhos dentários
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