Um estudo da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) revelou que bebês que vivem em condições de pobreza apresentam atrasos no desenvolvimento motor já aos seis meses de idade. A pesquisa, publicada na revista científica Acta Psychologica no início de fevereiro, relaciona a variedade de movimentos dos pequenos às condições socioeconômicas das famílias.
A investigação acompanhou 88 bebês do interior de São Paulo e constatou que aqueles expostos à pobreza demoravam mais para realizar movimentos básicos, como agarrar objetos, virar o corpo e sentar sem apoio. “Aos seis meses, esses bebês apresentam um repertório menor de movimentos”, explicou a autora do estudo, a fisioterapeuta Caroline Fioroni Ribeiro da Silva.
Menos estímulos, menos movimento
Segundo Caroline, bebês de famílias pobres variam menos os movimentos ao tentar sentar ou pegar brinquedos — e, em alguns casos, nem conseguem realizar essas ações. O estudo recebeu apoio da Fapesp.
A pesquisa reforça alertas já conhecidos: atrasos no desenvolvimento infantil podem impactar a aprendizagem futura. Estudos anteriores apontam que a falta de estímulos pode estar associada a dificuldades escolares, transtornos de coordenação e até sintomas relacionados ao TDAH. A pesquisadora ressalta, porém, que mais investigações são necessárias para confirmar essas relações.
Boa notícia: atrasos podem ser revertidos rapidamente
Um dos achados mais importantes é que os atrasos podem ser revertidos com estímulos simples. Aos oito meses, muitos bebês avaliados já não apresentavam diferenças significativas após receberem orientações de interação e brincadeiras.
As mães foram incentivadas a:
- colocar o bebê de barriga para baixo (tummy time)
- conversar e cantar
- oferecer brinquedos simples, como papel amassado
- permitir que a criança explore o chão com segurança
“Não são necessários brinquedos caros, apenas orientação”, destacou Caroline.
Ambientes pobres em estímulos
A pesquisa observou que, em lares mais pobres:
- bebês passavam mais tempo presos em carrinhos ou cadeirinhas
- havia menos espaço para explorar o ambiente
- a presença de muitos adultos no mesmo domicílio criava ambientes mais caóticos
- mães adolescentes tinham menos conhecimento sobre estímulos adequados
Por outro lado, a presença de pai ou mãe no mesmo endereço e maior escolaridade materna foram fatores associados a melhores resultados.
Estimulação precoce faz diferença
Brinquedos simples que estimulam a motricidade fina — como chocalhos feitos com garrafas pet e grãos — também ajudam no desenvolvimento. O tummy time, por exemplo, fortalece músculos essenciais para rolar, sentar, engatinhar e ficar de pé.
Caroline defende que visitas de profissionais de saúde podem ser decisivas para orientar famílias vulneráveis. “Como não é possível eliminar a pobreza ou a gravidez na adolescência, a orientação especializada é fundamental”, afirmou.
Contexto global
Segundo o relatório Situação Mundial das Crianças 2025, do Unicef, cerca de 400 milhões de crianças vivem na pobreza no mundo, enfrentando privações que afetam saúde, desenvolvimento e bem-estar.
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