Mensagens obtidas pelos investigadores indicam atuação de Lulinha, Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Ribeiro para beneficiar a Unigel; lobista teria recebido R$ 1,26 milhão e negociado comissão de R$ 25 milhões
Redação MVE
A Polícia Federal investiga se Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, usou sua proximidade com o Palácio do Planalto para favorecer interesses empresariais dentro da Petrobras. A apuração também alcança a lobista Roberta Luchsinger e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que ocupava o estratégico cargo de chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O caso envolve a Unigel, empresa de fertilizantes que enfrentava uma grave crise financeira e tentava fechar um contrato com a Petrobras para reativar fábricas localizadas na Bahia e em Sergipe.
O negócio, no modelo conhecido como tolling, previa que a Petrobras fornecesse gás natural e pagasse pelos serviços de industrialização. Em contrapartida, receberia os fertilizantes produzidos para comercialização. O contrato foi assinado em dezembro de 2023 pelo valor global de R$ 759,2 milhões.
Comissão de R$ 25 milhões
De acordo com informações da investigação, Roberta Luchsinger negociou diretamente com Leo Slezynger, diretor e filho do fundador da Unigel, um contrato de consultoria destinado a conseguir o acordo com a Petrobras e, posteriormente, um financiamento de R$ 500 milhões no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O acerto previa um pagamento inicial de R$ 100 mil e uma comissão de R$ 25 milhões caso o financiamento fosse liberado. Entre março de 2023 e julho de 2024, o empresário teria transferido R$ 1,26 milhão para a lobista, além de custear presentes e hospedagens.
A Unigel afirma que nunca manteve contrato com Roberta ou com qualquer empresa ligada a ela. Segundo a apuração, entretanto, os pagamentos teriam sido feitos diretamente pelo diretor Leo Slezynger, e não formalmente pela companhia.
Mensagens apontam atuação de Lulinha
As mensagens examinadas pela PF mostram que Lulinha tinha conhecimento das negociações, conversava com o diretor da Unigel e se reuniu com ele em março de 2023.
Em julho daquele ano, Leo teria agradecido ao filho de Lula por uma suposta intervenção junto ao presidente da República. Lulinha respondeu que o grupo estava “torcendo” e satisfeito por estar ajudando.
Os diálogos também indicam que Roberta apresentava Marcola como um importante articulador dentro do governo. Em uma das conversas, o então chefe de gabinete de Lula teria afirmado que estava pressionando a Petrobras para acelerar uma solução.
Apesar da gravidade das mensagens, não há, até o momento, prova pública de que Lula tenha determinado pessoalmente qualquer interferência. As referências ao presidente aparecem nas conversas entre os investigados e ainda precisam ser confrontadas pela PF.
Isso não elimina o problema político. O filho do presidente, uma lobista próxima e o chefe do gabinete presidencial aparecem discutindo interesses de uma companhia privada que buscava um contrato milionário com a maior estatal brasileira.
Técnicos apontaram risco de prejuízo
O contrato foi firmado em 29 de dezembro de 2023, mas passou a ser questionado pelo Tribunal de Contas da União. A área técnica do TCU avaliou que o acordo poderia provocar prejuízo estimado em R$ 487,1 milhões para a Petrobras durante apenas oito meses de vigência.
Posteriormente, foram apontadas possíveis irregularidades no processo, incluindo falhas na análise econômica e no cumprimento da governança interna da estatal.
Apesar da assinatura, o contrato não entrou efetivamente em operação. Em junho de 2024, a Petrobras comunicou que as condições necessárias não haviam sido atendidas e que o acordo foi encerrado antes de produzir efeitos.
A estatal afirma que seus diretores não trataram do assunto com Lulinha, Roberta ou Marcola e sustenta que as negociações respeitaram a legislação e as regras internas. A Petrobras também informou que uma investigação conduzida por sua Diretoria de Governança não confirmou interferências irregulares de diretores na tramitação do contrato.
Defesa fala em vazamento eleitoral
A defesa de Lulinha declarou que não teve acesso ao procedimento e que não comentará alegações que considera não verificadas. O advogado de Roberta classificou a divulgação das mensagens como resultado de vazamentos criminosos ocorridos às vésperas da eleição.
As negativas precisam ser registradas, mas não anulam a necessidade de esclarecimento. A sociedade tem o direito de saber se o acesso ao filho do presidente e ao chefe de seu gabinete foi comercializado para abrir portas dentro do governo e pressionar uma empresa controlada pela União.
O episódio atinge diretamente o discurso de Lula de que a Petrobras teria recuperado sua governança e deixado para trás as interferências políticas. As mensagens reveladas apresentam justamente o cenário que o petismo afirma ter combatido: empresários, lobistas e pessoas próximas ao presidente movimentando-se nos bastidores para influenciar decisões de uma estatal.
A investigação ainda não representa condenação. Mas, diante dos valores envolvidos, da proximidade dos personagens com Lula e das suspeitas levantadas pelo próprio TCU, o caso exige apuração independente, transparência integral e nenhuma blindagem política.
