A Polícia Civil do Amazonas detalhou um complexo esquema criminoso que combinava tráfico internacional de drogas, infiltração em órgãos públicos e uso de instituições religiosas como fachada. No centro da operação “Erga Omnes” está Allan Kleber Bezerra Lima, apontado como liderança do Comando Vermelho no estado.
A investigação revelou que igrejas evangélicas eram utilizadas como esconderijo para drogas e integrantes da facção, além de expor a dimensão financeira e política de um esquema que, segundo a polícia, movimentou mais de R$ 73 milhões entre 2018 e 2025.
Coordenada pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), a apuração aponta Allan Kleber como líder de uma estrutura de tráfico em larga escala, apoiada por empresas de fachada, colaboração de agentes públicos e estratégias para infiltração na administração pública.

Disfarce religioso e “camuflagem social”
A operação identificou que Allan utilizava uma igreja evangélica no bairro Zumbi, zona Leste de Manaus, como parte de sua estratégia de ocultação. Ele frequentava o templo, vestia-se como fiel e, segundo a polícia, chegou a esconder drogas no local. Outro investigado chegou a morar dentro de uma instituição religiosa, reforçando o uso de templos como pontos de apoio logístico.
Mensagens extraídas de celulares mostram Allan afirmando ter influência em diferentes esferas do poder público e alegando contar com proteção institucional.
O início das investigações: fuzis, lanchas e 523 tabletes de skunk
O caso ganhou força em 6 de agosto de 2025, quando a Polícia Militar flagrou criminosos transferindo drogas de duas lanchas para um veículo Fiorino no centro de Manaus. Após troca de tiros, foram apreendidos:
- 523 tabletes de maconha tipo skunk
- 07 fuzis de uso restrito
- Duas lanchas
- Um veículo utilizado no transporte da droga
Bruno Alexandre da Silva Candeira foi preso em flagrante. O rastreamento do veículo levou os investigadores a Messias Daniel da Silva Alves, que confessou ter alugado o carro a pedido de Allan, apontado como chefe da logística.
Lavagem de dinheiro e empresa em nome da esposa
A polícia identificou que a empresa A.F.S. Pinho Ltda., registrada em nome de Antônia Fabiane Silva Pinho, esposa de Allan, era usada para movimentar valores ilícitos. Transferências via Pix comprovaram pagamentos relacionados ao aluguel de veículos usados no tráfico.
Relatórios do COAF apontaram movimentações atípicas que somam R$ 73.151.169,00 em sete anos, envolvendo empresas de fachada nos setores de transporte e logística, utilizadas para viabilizar a compra de drogas na Colômbia e o envio para Manaus.
Infiltração no poder público
A investigação também revelou suspeitas de infiltração da organização criminosa em cargos estratégicos da administração pública.
Entre os nomes citados estão:
- Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas, suspeito de repassar informações sigilosas.
- Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete na Assembleia Legislativa, com transações financeiras milionárias ligadas ao esquema.
- Anabela Cardoso Freitas – policial civil licenciada e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, apontada como responsável por movimentar cerca de R$ 1,5 milhão.
- Alcir Queiroga Teixeira Júnior – investigado por participação no esquema financeiro.
- Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar ligado à rede de influência.
- Osimar Vieira Nascimento – policial militar preso por suspeita de envolvimento com o núcleo político.
- Bruno Renato Gatinho Araújo – preso no Amazonas.
- Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara.
Segundo a Polícia Civil, as conexões demonstram um “forte poder de influência da ORCRIM na Administração Pública”.
Pedidos judiciais e continuidade das investigações
Diante das evidências de crimes como organização criminosa, tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro, a polícia solicitou ao Judiciário:
- Prisão preventiva dos principais envolvidos
- Mandados de busca e apreensão
- Quebra de sigilo bancário e fiscal
- Sequestro de bens
Parte dos investigados já foi presa, enquanto outros permanecem foragidos, incluindo Allan Kleber, que escapou de um cerco policial em São Paulo durante a deflagração da operação.
A Polícia Civil estima que o grupo movimentou cerca de R$ 70 milhões nos últimos quatro anos, utilizando empresas de fachada, corrupção de agentes públicos e até templos religiosos como suporte às atividades criminosas.
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